UNITA entala garganta de João “Malandro” Lourenço

O cabeça-de-lista do MPLA, João Lourenço, pediu hoje, num comício em Malanje, maioria qualificada nas eleições gerais angolanas de 23 de Agosto, assumindo que espera do povo um mandato para “governar sozinho”. Embora saiba que que essa confortável maioria está garantida (só falta dar-lhe uma expressão numérica), fica sempre bem dar um ar de incerteza – como fazem nas democracias – para enganar os mais incautos.

Discursando perante, segundo números da organização, cerca de 120.000 pessoas (mais uma prova de modéstia do MPLA pois eram bem mais de 200 mil), o candidato do regime que está no poder há 42 anos aproveitou para – sem nunca dizer o nome do maior partido da oposição -, criticar o Governo de “inclusão” proposto pela UNITA caso vença as eleições.

João Lourenço recebeu ordens superiores para não falar expressamente da UNITA porque, entendem os seus conselheiros de propaganda, que as alusões ao Galo Negro poderão ressuscitar em muitos dos 20 milhões de pobres saudades desse “perigoso terrorista” chamado Jonas Malheiro Savimbi.

Para o também vice-Presidente do MPLA, no poder desde 1975, a proposta do histórico adversário explica-se porque os dirigentes da UNITA “têm a consciência que não vão vencer as eleições” e que não querem ser esquecidos, apontando a propósito o governo de reconciliação, com membros do partido do Galo Negro, constituído em 1994, após as eleições comprovadamente fraudulentas de 1992.

“Estão a dizer para não se esquecerem deles. Que façam deles ministros, embaixadores. Mas as circunstâncias agora são outras e nós já não estamos naquele período de 1992/1994”, ironizou João Lourenço. Ironizou e com razão. Nesse tempo o MPLA massacrou em Luanda mais de 50 mil cidadãos Ovimbundus e Bakongos, entre os quais o vice-presidente da UNITA, Jeremias Kalandula Chitunda, o secretário-geral, Adolosi Paulo Mango Alicerces, o representante na CCPM, Elias Salupeto Pena, e o chefe dos Serviços Administrativos em Luanda, Eliseu Sapitango Chimbili.

Não estamos também em Maio de 1977, altura em que o MPLA massacrou milhares e milhares dos seus próprios simpatizantes.

O candidato do MPLA, ministro da Defesa com funções suspensas para efeitos eleitorais, afasta acordos com a oposição, após as eleições de 23 de Agosto, acreditando ser possível renovar a maioria qualificada, de dois terços dos votos, conquistada pelo MPLA nas eleições de 2012, então com José Eduardo dos Santos como cabeça-de-lista.

Convenhamos que só não terá 100% (ou até mais) dos votos se não quiser. Se o grande amigo do MPLA, Kim Jong-un, foi eleito com 100% dos votos, porque carga de chuva João Lourenço não pode atingir, ou superar, essa marca?

“Então vocês dizem: MPLA, governe. João Lourenço, governe. Está aí uma maioria qualificada para você poder governar, e você vai chamar os perdedores? Nas democracias isto não acontece, porque é que em Angola há-de ser diferente? Não tem que ser diferente. Não será diferente porque os angolanos vão-nos dar essa maioria qualificada que nós necessitamos”, disse João Lourenço.

O candidato concentrou grande parte do discurso de mais de uma hora, no terreno junto à estação de caminhos-de-ferro de Malanje, para apelar ao voto, confiando na eleição generalizada de cinco deputados (máximo) pelos 18 círculos provinciais, a que acresce o somatório da votação para o círculo nacional, que define o cabeça-de-lista eleito para Presidente da República.

“Será com esta combinação de 5-0 em algumas províncias e quatro noutras que nós vamos chegar à maioria qualificada de dois terços. E vamos depois do dia 23 deste mês, depois de constituído o Governo, governar para todos os angolanos, sem termos de chamar, necessariamente, de Governo inclusivo. Porque qualquer Governo é já em si inclusivo, qualquer Governo governa para os cidadãos”, apontou João Lourenço em mais um episódio do trágico anedotário nacional.

Em Malanje, o candidato voltou a colocar a prioridade na agricultura, assumindo que aquela província pode ser o celeiro de Angola, prometendo para isso apoio ao investimento privado, desde logo na instalação no país de uma indústria de alfaias agrícolas e montagem de tractores e defendendo a aposta na cultura local do girassol, do açúcar e do algodão.

Ou seja, prometendo tudo aquilo que o seu partido não fez ao longo de 42 anos de poder.

Folha 8 com Lusa

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